Operação mais forte, resultado pressionado pelos juros
Entre março de 2021 e junho de 2025 a Selic subiu de 2% para 15% ao ano, com uma pausa de cortes entre agosto de 2023 e maio de 2024, quando chegou a 10,50%. Para empresas que dependem de capital de terceiros para crescer, como locadoras, varejistas, empresas de educação, saneamento e energia, esse movimento transferiu parte relevante do resultado operacional para o pagamento de juros.
O estudo procura companhias em que a operação melhorou e o resultado financeiro passou a absorver uma parte maior da receita: a receita seguiu crescendo, as margens ficaram próximas ou acima do padrão de 2021 a 2023, e o EBIT e o EBITDA estão acima dos níveis de 2021. O critério não exige queda do lucro: na maior parte das selecionadas, o lucro de 12 meses já supera o de 2021. O que o estudo capta é a fatia do resultado operacional que passou a ficar com os juros, e que tende a diminuir à medida que eles recuam.
O Banco Central iniciou o ciclo de cortes em março de 2026 e, até setembro, levou a Selic de 15% para 13,75%. A mediana das projeções do boletim Focus de 18/09/2026 aponta 13,50% no fim de 2026 e 12,00% no fim de 2027. Na dívida atrelada ao CDI, o corte chega à despesa financeira quase de imediato, porque os juros são recalculados pela taxa do período; na dívida prefixada ou atrelada à inflação, o alívio só aparece quando ela é renovada. Como o caixa aplicado também passa a render menos, o ganho líquido depende de quanto a dívida supera o caixa.
O efeito tende a ser mais intenso quanto maior a parcela do EBITDA hoje consumida pelo resultado financeiro e quanto maior a alavancagem, que é o que o mapa de sensibilidade mais abaixo mostra. O estudo não é uma recomendação: ele identifica empresas em que essa alavanca existe, e cada caso tem riscos próprios, descritos na análise de cada companhia, mais abaixo.
Selic meta (% ao ano)
Valor no fim de cada mês, de jan/2020 a set/2026 (o último ponto é a taxa vigente em 29/09/2026), e mediana do Focus para o fim de 2026 e de 2027
Fontes: Banco Central do Brasil (Selic meta, via brapi.dev; boletim Focus, API de Expectativas de Mercado).
Como a seleção foi feita
Foram analisados os balanços trimestrais das empresas não financeiras do IBRA com dados comparáveis desde 2021 (118 de 126), do 1T20 ao 2T26. Ficaram de fora, por falta de série trimestral comparável na fonte de dados: Armac, Camil, Natura, Petz/Cobasi, São Martinho, TIM, Tupy e Vitru. Para neutralizar a sazonalidade, os indicadores foram medidos em 12 meses acumulados. Uma empresa entra na lista quando atende aos quatro critérios e passa pela revisão da série.
Receita crescente
Receita líquida dos últimos 12 meses maior que a de 2021, com crescimento médio acima de 3% ao ano em valores nominais (sem descontar a inflação), e maior que a dos 12 meses anteriores.
Margens preservadas
Margens EBITDA e EBIT dos últimos 12 meses no máximo 1,5 ponto percentual abaixo do nível típico (mediana das leituras de 12 meses entre 2021 e 2023).
Operação mais forte
EBIT e EBITDA acima do nível de 2021 e, no máximo, 3% abaixo do nível de 12 meses atrás.
Juros pesaram e depois estabilizaram
Em algum momento desde meados de 2022, o resultado financeiro pesou pelo menos 1 ponto percentual da receita a mais do que em 2021 (ou a piora chegou a 10% do EBITDA atual). E, na média dos dois últimos trimestres, esse peso não piorou mais de 0,5 ponto em relação aos dois anteriores. Em algumas empresas o peso atual já é menor que o de 2021.
Revisão da série
Cada aprovada passou por duas revisões separadas da série trimestral, uma delas encarregada de contestar a aprovação, em busca de aquisições, cisões e ganhos pontuais que distorcem a comparação. Não se trata de auditoria contábil.
Sensibilidade aos juros: alta quando o resultado financeiro consome 25% ou mais do EBITDA e a dívida líquida bancária é de pelo menos 1,5 vez o EBITDA; média quando consome entre 10% e 25% (ou mais, com dívida menor); baixa abaixo de 10%. EBITDA calculado como EBIT mais depreciação e amortização. Dívida líquida bancária sem arrendamentos (aluguéis). O resultado financeiro é o valor líquido da demonstração de resultados: além dos juros da dívida, inclui juros sobre arrendamentos, variação cambial, derivativos e o rendimento do caixa, e parte disso não acompanha a Selic. Bancos, seguradoras, bolsa e holdings de participação ficaram de fora, porque neles receita e resultado financeiro têm outra natureza.
Onde os juros pesam mais
Quanto mais à direita, maior a alavancagem; quanto mais alto, maior a fatia do EBITDA consumida pelo resultado financeiro nos últimos 12 meses. As empresas acima e à direita das linhas tracejadas (resultado financeiro de 25% ou mais do EBITDA e dívida líquida bancária de 1,5 vez o EBITDA ou mais) são as de alta sensibilidade, que tendem a ter o maior alívio com a queda da Selic, na medida em que a dívida seja atrelada ao CDI. Clique ou toque em um ponto para abrir a empresa.
Empréstimos, financiamentos e debêntures, menos caixa e aplicações de curto prazo, no último balanço. Não inclui os arrendamentos (aluguéis).
A dívida exclui os aluguéis, mas o EBITDA inclui o efeito contábil deles (IFRS 16). Por isso a alavancagem calculada tende a ficar abaixo da divulgada pelas companhias.
No eixo horizontal, valor negativo significa que a empresa tem mais caixa do que dívida.
18 empresas selecionadas
Os números lado a lado
Indicadores em 12 meses até o último trimestre divulgado, em ordem alfabética. Clique no título da coluna para ordenar e na linha para abrir a empresa. O potencial compara o preço de fechamento com o preço-alvo da Genial e com a média dos preços-alvo do mercado.
Passaram no filtro, mas ficaram de fora
Estas 12 empresas atenderam aos quatro critérios numéricos, mas a revisão da série mostrou que o resultado vinha de um evento pontual ou de uma mudança de perímetro (aquisição, cisão ou incorporação), que a tese de alívio dos juros não se aplica à empresa, ou que um fato societário, como uma oferta pelas ações, passou a determinar o preço. Por isso não fazem parte do estudo.